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quarta-feira, 8 de junho de 2016

EU? UM EX-FUMANTE AT...?

Ah, que bom que já estou conseguindo escrever um pouco! Sim, estive desatento e, neste meio tempo, confesso, aprendi que a falta de concentração é bastante comum quando o novo aparece para deixarem velhos aqueles hábitos que achávamos inteiramente naturais. Refiro-me à nicotina e ao seu companheirismo caro de ‘mata-corpos’. Se sinto falta? Claro que sim. Como poderia não sentir? Os sentidos todos funcionavam como radares que se apuravam ao menor som da perninha de um grilo. Mesmo assim, neste momento, sinto que já começo a me acostumar, uma vez que quase havia me esquecido, por exemplo, das cores do cheiro do café, da língua esfumaçada que nos experimenta a cada golinho de 'estalalábios'... Ai! Mas apesar disso, queria voltar a ser o número 33 (contando de trás para frente) daquele que fui. Por que 33? 33 vértebras, ora!, só que agora – se pudesse – organizaria cada uma delas um pouco mais retas, sei lá. Acho que este de mim anda demasiado torto para seguir com está. Sorte que sou teimoso, tento daqui. Mas sem vícios ou mitologias. Preciso voltar a ser livre, se não em tudo, ao menos em algumas partes deste novato que me tornei hoje.  
Confie em mim, ponha a ponta do dedo na língua, como um teste. Aponte-o para o alto e aguarde... Se nesse meio tempo a temperatura não se ajustar à umidade, então saia. Lugares muito secos atraem fogo fácil demais. Perigoso. Ficar – meu amigo –, exige adaptação e uma perda trocada por ganhos cancerígenos. Explico: se fumam, fico; fumantes não me forçam a fumar. Por outro lado, se o assunto for religião, recuso-me, pois a fumaça que me impedia de viver (mesmo de forma prazerosamente) através dos cigarros, entupiria de fumaça tudo aquilo em que acredito – o que não está incluído uma versão infantil de um amigo imaginário que mora em algum lugar por entre as nuvens.
Enfim, perdoem-me os mais moralistas. Existem dias que demoram a passar. Bons, ruins... Não importa. Quando a inquietação bate é melhor deixá-la entrar, já que vai entrar de qualquer maneira mesmo. É! Não tem jeito, esta hóspede geralmente aparece só para esticar o que seriam momentos breves e de outras preocupações despreocupadas por ocuparem de menos a cabeça da gente. Então ficamos cheios de visitas, de pensamentos que vão se engordando em mais e mais inquietações. Estou quase livre dos vícios. Mente e corpo se somam quando a saúde do pensamento não dependem mais de neblinas para funcionar. Acho que há certo equilíbrio nisso. Há certa clareza em enxergar, finalmente, através do nevoeiro. Que bom! Consigo sentir já o gosto das coisas, as cores das coisas. Sim, sou livre: ateu e ex-fumante.  

sábado, 9 de abril de 2016

OS PELADOS SERÃO CASTIGADOS...

Há dias em que o mundo parece inspirado pra nós. Momentinhos que nos dão até aquela vontade de existir mais um pouco em determinados lugares. Sim, acho bem difícil a existência para fora. Ah! já dá um trabalho danado pensar-se a si mesmo. Mais ainda quando temos que balancear as nossas (existências) com as dos outros. Bom, talvez seja por essa razão que eu não goste tanto de sair de casa. O mundo parece complicado demais para fora de meu portão. Prefiro os livros, a escrita. Eles me jogam para aqueles momentinhos dos quais falei. Neles o trabalho se reduz em pensar sobre o que sou e quase nunca em como preciso ser para ser aceito por quem, geralmente, mal sabe quem é – eu disse geralmente.
Em minha percepção escrevinhada, uma só pessoa parece bacana, infinitamente interessante, inclusive. Em grupo (não estou falando de escola, por lá sou um vivente feliz) a luz enfraquece, um lume vai escurecendo pelo outro até que tudo se torne escuridão, ‘blackout’. Nesses escuros não nos vestimos mais por conta do frio, mas para deixar de sermos nós. Afinal de contas, mesmo usando as roupas que nos deixam invisíveis, precisamos socializar com outros vestuários escondedores de gente.
Contudo, como eu estava dizendo. Há momentos que nos são bonitos e bem vestidinhos por estarem nus. Exatamente por isso, às vezes, meus dedos me fazem sentir falta das pequenas coisas. Das ‘bolitas’ perdidas no quintal. Dos segredos confiados aos meus amigos inventados. Da infância gordinha de criança... Saudosismo? Talvez. E quem nunca parou diante do horizonte e sentiu carência de alguns de seus ‘ontens’? Se já, sabe bem que nesses momentos nos esquecemos, inclusive, do relógio, é uma nudez total. Cria-se um tempo ligeiro ali. Um que se estica e logo morre pequeno, tal como um cuspe que seca muito antes de cair ao chão. Ai! quando esses instantes se congelam no ar, abrem-se brechas que nos espiam: suspiros de uma saudade morrendo de vontade de entrar, de se partir em duas – numa que vai; noutra que fica!
Por fim as peles... Sim elas mesmas, as peles. Elas são os únicos tecidos que importam. Por baixo delas estamos todos pelados e sozinhos, mesmo achando que não. Por isso preciso ficar tricotando um monte de textos cheios de cuspes parados no ar. Teço muito para que os espíritos (esses ninguéns) não passem tanto frio nas vezes em que resolvem partir – acho justo que estejam bem agasalhados antes de pegarem a estrada. Verdade, minha escrita serve mesmo é para cobri-los bem. Os fios? Todos eles são puxados do novelo da preocupação, ora! Sabemos que o mundo não tolera nenhum tipo de nudez, elas são castigadas por serem visíveis demais.   

quinta-feira, 31 de março de 2016

O PROFESSOR CHATO

Ainda ontem, enquanto explicava algo importante, ouvi um pequeno ruído que se perdia mais ou menos assim: “Esse professor é chato...”. De imediato fiz com que meus olhos não traíssem os ouvidos. Voltei-me para o quadro negro e sorri. Senti que havia um bom presságio nisso, já que o contrário seria a constatação veemente de minha falha enquanto Mestre que (modéstia à parte) sou. Pois é, não sei ser vadio, gastar o tempo dos outros é inconcebível pra mim. Se ser chato é isso, então sou. Sorte de quem está lá para aprender. De nada!  
De fato entendi bem o que o sussurro queria dizer. Pessoas, ainda mais quando estão em grupo, costumam confundir empenho com chatice, ou algo parecido. Rejeito a facilidade dos politiqueiros, mesmo que seja mais prático não fazer nada e ganhar a confiança de todos por isso – o que é irônico.
Sim, deve entender. Jamais se engane comigo, tenho total consciência de que o melhor mesmo é sossegar. O ‘tem-que-ser-agora’ nos trai pela preguiça da dureza que é crescer e trabalhar. Será que queremos que os outros cresçam por nós? Sim, têm horas que acho que sim, mas passa. Não sei conformar, aliás, nem posso. Pessoas precisam de mim e eu delas. O que tenho a oferecer é conhecimento; sabedoria vem com o tempo e pelos temperos. Lembrando que sabor e saber dividem a mesma raiz, sempre é interessante pensar nisso. No que relembro – e aqui mais uma vez me repito: professores não sabem fazer fogo, só sopram as brasas. Quanto a mim, não me contento, quero é fazer fogo até no gelo (já fiz isso, um dia também derreti). Utopia? Não, é meu trabalho mesmo. Existo assim para que um fio de futuro possa existir e tenha chance de fazer parte de alguma cabeleira. Gosto de cabelos coloridos, você não?
Enfim, nada é fácil. Às vezes, inclusive, a justeza de ser justo some-se em quereres mais largos que nos querem exigir 'bondades'. Precisamos escolher, não dá para ser os dois. Confesso que fico sempre com o primeiro (o ser justo), tudo para que o segundo se renove em uma lembrança futura de – agora sim – boa formação. Sou indiferente a indiferenças (me nego a não explorar o máximo de essência em minhas aulas). Por isso ocupo-me tanto em preocupações de um amanhã melhor, não só para mim, não seja tolo. O amor que ofereço sempre é compreendido em longo prazo e sem muita pressa. A pressa mesmo está somente em te fazer melhor, por mais que eu precise trabalhar muito para isso, muitas das vezes até de madrugada. Sim, sou injusto só para comigo. Nego-me agora para que tu existas no que há por vir.
Putz, como eu gosto de ser professor!

quarta-feira, 30 de março de 2016

O HOMEM DE LATA

Enquanto preparava algumas aulas de língua portuguesa, algo me ocorreu no exato momento em que decidi buscar um pouco de ar puro. Fui até a frente de casa, respirei um pouco e percebi o passado desenferrujando na rua: era um menino andando de bicicleta. Acho que brincava de motociclista, já que produzia com a boca os sons que costumam fazer os motores. Imediatamente entrei. Revirei minhas coisas e abri um livro, a “Gramática expositiva do chão”, do poeta Manoel de Barros. Ao acaso, parei na seguinte estrofe de um dos poemas: “O homem de lata/ está todo estragado/ de borboletas.” Verdade, naquele momento eu estava mesmo inutilizado por elas e pelo o que aquela criança de bicicleta me fez recordar. Em meu tempo cortávamos tampas de potes de margarina e as prendíamos perto das rodas para produzirem os mesmos sons que o rapazinho ali da rua passou sonhando pela boca. Elas (as tampas) borboleteavam para longe, lonjuras que só uma criança é capaz de chegar através da música que os raios das rodas produziam naqueles motores inventados.
Mas voltei ao trabalho e tudo clareou. O homem de lata, o gramatiqueiro professor de português, imediatamente chispou para longe as borboletas. A metalurgia daquele atual espírito precisava se concentrar em coisas mais ‘sérias’, tal como a estrutura gramatical das frases. E não, não podia gastar mais tempo com absurdos de um poema que só me fez perder o foco. Quem quer saber sobre meninos que sonhavam demais? Homens de latas não interessavam no momento. Não sou um. O único que conheci esteve no “Mágico de Oz”, ele, até onde eu me lembro, buscava um coração de verdade. Só que preciso desenferrujar e voltar ao trabalho. Está aí. Para não perder o momento, aproveito. Boa frase para uma análise morfossintática. Vou utilizar:
(Atenção: minhas borboletas sugerem que tu pules o próximo parágrafo).
“O menino sonhava muito.” Vejamos! Aqui temos uma oração absoluta ou período simples – isso por apresentar apenas um verbo em sua estrutura. “O”, é o adjunto adnominal do núcleo do sujeito (menino). “Sonhava”, verbo intransitivo direto acompanhado por um adjunto adverbial, a palavra “muito”. Pois bem, horizontalmente é isso (chamam também de sintagma, ou análise sintática – como queira). Chata esta verificação? Ah! Mas não acabou. Observem agora na vertical, na paradigmática (morfológica): “O”, artigo definido. “Menino”, substantivo simples. “Sonhava”, verbo no pretérito imperfeito do indicativo, ele está na terceira pessoa do singular.
Parei e perguntei a este meu lado metálico: “Mas senhor homem de lata, e o menino?” “Que menino? Ah, o sujeito da oração?!” “Não.” – respondi – “O menino que éramos e que sonhava naquele motorzinho de borboletas cheio de imaginação. Aquele que tinha coração! Lembrou?” “Não.” 

terça-feira, 29 de março de 2016

SOBRE O QUICO E A BOLA QUADRADA QUE NÃO QUICA...

Olá! Neste momento eu deveria estar descansando. Sim, às vezes sossegamos dos desassossegos. Só que não sei mais fazer isso, ao menos não com tanta frequência. O que sempre me tira do que preciso ser são coisas que não são coisas por serem essenciais. Te conto se tiver paciência para mim. Senta aí! Sentou? Então tá!
Bom, antes de resolver conversar contigo (observe como sou pretensioso), estive corrigindo um texto belíssimo de uma aluna que anda me procurando para se encontrar dentro de seus escritos. Depois, satisfeito e revirando meu armário de livros, encontrei o velho Machado de Assis. Pois é, normalmente, não dá para ignorá-lo – eu falei ‘normalmente’? Enfim, se for um leitor atento, perceberá que uso do mesmo recurso dele, a metalinguagem, ou como dizem hoje em dia: quebrando a quarta parede. Influenciado, claro, decidi sair um pouco de mim para poder ter uma conversa franca e pouco mais próxima de ti. Espero não estar te chateando. Culpa da menina e do Machado, cobrem deles. Contudo, como uma coisa leva a outra, ao olhar um pouco para o passado, pensei no seguinte: “Por que a vida não obedece à mesma lógica da literatura? Tudo nela é tão certinha, menos a kafkiana, não mesmo. Talvez o mundo seja tão absurdo quanto. Será isso?”
Enfim, esse pensamento me veio ainda agorinha pela janela (perceba, a vida é um pouco como este desabafo, um pouco lá, um pouco aqui, um pouco fugido). Mia Couto tinha mesmo razão, além de ela (a janela) sentir vontade de ser mundo, ainda quer explorar os meus, escapar com eles. Nesse embaraço ‘enjanelado’, juro ter ouvido nitidamente ali de fora as vozes da infância: “Quico, vem cá!” – uma dizia. “Quico, sua mãe está? – outra.” Fechei a janela, isso dá um pouco de medo, confesso.  
Amigo de meus vazios, mesmo que não saiba de mim, conto um pouco sobre a razão pelo qual a janela e o tempo nos fazem esquecer às bolas redondas. Fique atento, pois explicarei tudinho a você e aos que nem sabem que sabem sobre suas próprias criações. Arredondemos estas bolas:
Desconheço pessoas que nunca assistiram ao programa do ‘Chaves’. A série de televisão é antiga e teve uma bela repercussão em meus anos de criança. No entanto, para que entenda, trago à tona um personagem, o Quico. Já conjugou o verbo quicar? Eu quico a bola. Tu quicas a bola. Ele quica a bola. Nós quicamos a bola. Ele quicou a bola... Pois então. Quando menino, por conta de receber atenções especiais de minha mãe – digamos assim. Recebi o apelido de Quico. No início era para ironizar o que elas deixavam faltar aos seus próprios filhos (carinho); depois, esquecido por todos, o epíteto acabou se instalando e, quadrado, foi fazendo parte de minha molequice. Inclusive, há pessoas mais velhas (algumas já mortas) que acho que nem sabiam que me chamo Dilso. Porém – ainda bem –, a crueldade de alguns foi dividida. Havia a Quica também, minha prima. Ai, amigo, como hoje isso me parece tolo, engraçado e, na mesma proporção, triste! Sorte que estudei onomástica e, hoje, posso refletir melhor sobre essas besteiras! (risos).
Está com pressa? Fique mais um pouco, tenho tanto pra te contar. Não dá? Tudo bem. Dias desses mostro a você que o mundo não gira, ele quica na ilógica falta de senso de uma bola quadrada de tantos inventores de Quicos que já quicaram na vida por serem malvados...
Bem, já falei demais. Agora te deixo em paz. Até mais, amigão!  

sábado, 26 de março de 2016

O CONTRÁRIO DO AMOR NÃO É O ÓDIO; É A INDIFERENÇA

Se não gosto. Não me ocupo. Não me gasto. Evito ao máximo.
Esses são os principais fundamentos para que algumas úlceras se mantenham distantes de nós. Porém, mesmo correndo riscos, devemos sim (quando necessário) interferir, inferir. Gostar é outra coisa, temos esse direito. Refiro-me à política. Ao comprometimento com o trabalho. À sociedade. Evitar o que é de nossa responsabilidade é a maneira mais hipócrita de assumir uma culpa que, ironicamente, vamos sempre negar, jogar aos outros.
Pois é. Em curto prazo, conservar-se sossegado parece até bom, isso qualquer um admite. Mas esse conforto esconde algo muito perverso. Quando não fazemos nada (mesmo podendo fazer) jogamos para o colo dos outros todo peso que, de nossa parte, nos cabe aliviar. Perceba que nesse caso a indiferença é sim o contrário do amor (veja bem! Aqui o ódio é até inocente), pois quando não queremos nos incomodar/ desassossegar é inevitável que alguém pague sozinho pelo prejuízo – estrago que em alguns casos chega a ser irreparável e – por que não dizer? – cruel. Verdade, somos responsáveis por muitas úlceras alheias quando cruzamos os braços. Pense nisso.
Também venho reparando que as pessoas não se dão conta disso. Politicar quando na verdade se deveria trabalhar, nem sempre é a melhor solução para o conjunto do qual fazemos parte. Isso só é bom para o politiqueiro (e não estou falando somente dos partidaristas). Posso estar enganado, mas política boa é aquela na qual o todo faz parte, beneficia-se. Afagos vazios não passam de patifarias exercitadas através de muitos engodos. Fique atento.
Imagine, por exemplo, se tu me mostrares um chapéu enorme e ridículo e eu, por agrado, te disser que ele é bonito e adequado para ir ao cinema. Na certa que vais adorar saber de minha aprovação. Contudo, quando chegar ao destino, as pessoas irão te maltratar, rir de ti. Percebeste? Minha indiferença te faria um palhaço estorvador de sessão. Confesso que no caso do chapéu, o ódio parece até ameno, se formos pensar. Por outro lado – e esse é o melhor de tudo –, vais me amar pela minha falta de consideração. Ainda bem, os condenados serão os que estavam no cinema, claro, nunca eu. Entendeste a relação?
Sim, estou chateado por conta de tudo isso, pois quando a falha no caráter torna-se uma verdade; a verdade é que se torna uma falha – rachaduras no plural. Não sou Cassandra, mas prevejo mais 500 anos de 'involução', malandragem, 'deseducação', pouca criticidade, comprometimento e 'terceiromundicíces'. Continue ouvindo a quem te é indiferente, e regrida. Na certa que ele nunca terá úlceras, tu sim.  


terça-feira, 22 de março de 2016

O AMOR NÃO RESPEITA A MORTE...

Amei uma gata. Digo no sentido literal, uma gata mesmo. Pode até ser que algumas pessoas leiam estas linhas com olhos esquivos e zombeteiros. Entendo todas, só não me peçam para compreender. Para isso preciso me esquecer do que vivi e ser um pouco frio ao enxergar como piada esta situação. Ando cego para esse tipo de visão. As memórias não me deixam te acompanhar nisso. Desculpem!
Como posso? Basta que eu levante a cabeça para dar de cara com uma fotografia. Ela não esconde somente um momento, o desenho implode-se até um “não-mais-ser” que só volta a ser nos pensamentos de quem ficou aqui a explodir tanta saudades redondas. É como se jogássemos uma pedrinha num lago calminho. Os círculos vão crescendo e fazendo florescer boa parte do que estava quieto. Quando isso acontece conosco, inevitavelmente, o peito se esvazia de tanto estar cheio, mesmo que dentro da gente ele aconteça ao contrário: ao invés das ondas arredondarem-se para longe, elas vêm abraçando o coração até sufocá-lo todinho naquele silêncio de “pedra-jogada-no-lago”.
Enquanto escrevo, meus amigos, os dedos é que enxergam por mim. Acompanham o que dito num dedilhar de pouca música, mas de muita tristeza. Faz dois anos que congelei naquela foto uma amiga que veio ao mundo só para ler Mia Couto comigo. Pretensão? Não. Só quem esteve perto pode confirmar isso. Contar sobre as longas noites em que passamos nos clareando nas leituras desse autor que carrega o Mia de gato. Coincidência gostarmos tanto dele. Por isso não explico o gosto que nos fez existir. Acho que só existimos, e pronto. Tinha que ser.
Ah! quando ela morreu, logo após ter me deixado seguro em minha defesa de Mestrado, passei umas duas semanas sem conseguir decifrar ao menos uma linha. Havia desaprendido a ler sozinho, esqueci um pouco da vida para também morrer um pouquinho. Entretanto, intencionando trapacear a morte (Sísifo foi o primeiro), mandei imprimir uma fotografia dela. No início rolei uma pedrona para o alto de uma montanha. Contudo, o tempo foi fazendo com que o fardo fosse se tornando mais leve, até finalmente poder retomar minhas leituras. Sarei, mesmo que às vezes a saudade me aperte um pouco as costelas. Mestre eu? Não, amigos, a Mestre foi embora quando sentiu que os espíritos haviam se afinado em mim. Eu disse Mestre? Quis dizer Maestrina, aquela que soube reger uma orquestra inteira num conserto bem concertado.
Enfim, agora já podem rir, pois sim, amo uma gata (a Sofia). No presente mesmo, uma vez que esse amor não respeita nem mesmo a morte. Engraçado, não é?! 

LIVROS DE PRESENTE E UM SUPER-HOMEM DECADENTE

Bom, dá para imaginar um presente melhor? Eu mesmo, geralmente em um impulso involuntário, acabo sempre caindo no abismo de ter que dar um livro que gosto a alguém. Sabe, acho que não somos nós, mas eles que volta e meia resolvem mudar de rumo e de casa. O que não considero um total abandono, já que uma vez lidos acabam morando para sempre ali por dentro da gente – seus desassossegos desassossegam outras partes e assim nunca mais nos deixam sossegar.
Quando era criança, por exemplo, tinha um pouco de raiva em ganhar roupas (ainda não conhecia os livros). Nossa! Naquele tempo queria mesmo eram brinquedos, ora! Por que ninguém entendia isso?! A coisa toda era tão bem vestida que, arrumadinha, sempre respeitava a seguinte ordem: no Natal, roupas; na Páscoa, roupas; no aniversário? Adivinha. Sim, acertou. Roupas. Não, nada de bonecos ou carrinhos de fricção. Mesmo assim confesso que me sai bem, ao menos tinha certa fertilidade na imaginação, certa nudez. Pegava uns prendedores de roupas, abria-os ao meio... e eis que surgiam bonequinhos carregando mochilas atômicas. Minha mãe desaprovava, claro. Afinal de contas, prendedores são para prender as... Adivinhou? Pois é.  
Contudo, já fui bem mais ousado. Certa vez encafifei que era o Superman. Tirei a roupa, pus uma cuequinha vermelha e, com uma camisa do meu pai abotoada no pescoço, saí pelo mundo a voar. Só que eu não estava satisfeito. Para provar que minha visão era também de raio x, pus uma venda nos olhos e comecei a andar. O objetivo era virar certinho na entrada de casa. Pena, um pouco antes havia um esgoto, na época, a céu aberto e – entre outras coisas (muita bosta) – cheio de cacos de vidro. Caminhei, caminhei... e puf! Acordei horas depois dentro de uma bacia. Que vergonha, o Super-Homem acordara pelado na frente de uma meia-dúzia de curiosos enquanto sua mãe o lavava por causa da sujeira e do sangue. É, meus amigos, desmaiar é como morrer, desligamos mesmo! Bah! Até hoje, toda vez que olho para o espelho, lá está ela: a cicatriz do corte bem no meio da testa do homem de aço. Nem preciso dizer que resolvi deixar essas coisas para os quadrinhos e para o cinema, há dublês por lá. Decidi que era mais seguro.
Mas cresci e descobri que não precisaria mais me quebrar tanto para voar ou enxergar através das coisas. Ao ler o primeiro livro, passei a observar o que havia de errado em mim. Nada, ué? Apenas queria voar. O que têm de errado nisso? Nas palavras estava tudo o que precisava. Não havia mais necessidade de quebrar ossos. Dali para frente passe a ler como um louco, agora, cheio de lucidez... Li, e li, e li... até encontrar a poesia. Ah! Então aquele mundo afora se tornou cheio de lonjuras e, inclusive, até nos cricrilos dos grilos já podia vislumbrar um motivo para relembrar dos tempos em que me encontrava sozinho com meus prendedores atômicos. Tudo me clareou. Incrível, o bem que isso me fez também me move a presentear pessoas que considero malucas e que, exatamente por isso, tenho admiração. Roupas não. Livros. Pois só eles é que sabem nos vestir por dentro, que é onde importa mais. A moda não está em ovos de chocolate ou em ricos vestuários embrulhados em grandes caixas debaixo de um pinheiro de canto de sala.  A moda é dar livros de presente. Sim, livros mesmo! Uma vez que são brinquedos, e quem sabe brincar direitinho com eles está na moda, fica sempre no melhor estilo do "consigo-mesmo".
A propósito, não me importo em ganhar livros. A não ser que me queira ver quebrando a cabeça outra vez... Quer? Não faria isso comigo, não é?
Fica a dica!  

terça-feira, 15 de março de 2016

PIBIDIANOS CONTRA O DETERMINISMO SOCIAL...

Não, ninguém é culpado pela riqueza econômica engordada à custa do racismo de nossos ancestrais, mas alguns dos de nós ainda usufruem dele. Continuam marcando ponto na história para conservarem-se no luxo do que começou a sangrar lá atrás. Hoje, por exemplo, sendo em média 51% de cidadãos negros no Brasil, só uma minoria dessa maioria consegue colorir cargos importantes ou mesmo bancos particulares de ensino, sobretudo em nossa região (para um bom observador, percebe-se um pequeno apartheid, sempre veementemente negado, claro). Estou mentindo? Observem. Percebam, sintam os motivos de minha inquietação.
Explico mais: historicamente estamos às margens, na periferia da sociedade autoproclamada “bem-de-vida”. Mas os ventos tortos que nos censuram os caminhos – acreditem! – não podem desnortear nossos espíritos, eles são como velas altas e confeccionadas para serem resistentes e coloridas. Ah, e sim! Não se preocupem, sabemos muito bem ajustá-las para seguirmos ‘marujando’ por este marzão turbulento junto com vocês, os deuses da sociedade pequeno-burguesa. Netuno não subestimou Ulisses? Polifemo não ousou prendê-lo numa caverna? Pois o gigante ciclope enfrentado por nós (o que é engraçado) cega-se diariamente no pensamento pontiagudo de que somos “Ninguéns”. Digo bem, no plural mesmo, já que há muitos Ulisses dentro desta nau: além dos professores, alunos e comunidade, temos mais “Alguns” – os heróis do Pibid e outros de seus irmãos. Pois é. Acho que logo chegaremos a Ítaca (aqui representada como dignidade!).
Ingênuo, eu? Ah, meus caros! Ingenuidade é perceber uma capa de chuva que se descobre no outro, e na ânsia de ajeitá-la, encharcar-se todo, já que ambos pensam ser este o nosso dever. Depois é só curtir uma gripe solitária e oblíqua! Doença que causa conforto a quem ficou seco. Pena. Em lugares pouco mais civilizados isso ganharia o nome de educação, lonjuras onde as vias são todas de mão dupla. E garanto que todos os profissionais do ensino, juntamente a outros movimentos importantes, como o Pibid, fazem com que nos lembremos de que já ficamos tempo demais na chuva, ou nas abas do mundo. É hora de nos levantarmos, irmãos. Chega de aguardar até que o tempo melhore, ajustemos nossas capas e sigamos a vida sem precisar nos molhar tanto. A educação existe para que sejamos iguais. Basta de determinismos. Na dúvida, vá nos ajudar nas escolas públicas e melhore o mundo, ponha cor nele, assim como fazem cada um de nossos ‘pibidianos’... Morrendo? Não, não podemos permitir que morram, pois o sinônimo de Pibid é esperança. Deixe-os sair da caixa, Pandora. Deixa... 

quarta-feira, 2 de março de 2016

MINHAS DUAS GALINHAS...

Na tentativa de provocar alguma claridade, a alma sempre me põe a escrever. Bom, acho que não sei mais pensar a não ser pelos dedos – preciso que eles catem, um a um, os milhos das letrinhas que vão me faltando para completar certas ideias escuras (e até obscuras) que desaprendi a iluminar sozinho. Às vezes, inclusive, – o que é bem interessante – sinto até que minhas mãos se parecem com duas galinhas, pois quando o terreno está sujo ali nas interioridades, elas ciscam e ciscam, até tudo ficar limpinho. Em seguida vêm os espíritos do dia (parecem que esperam pelo momento certo) e lhes jogam alguns punhados de grãos. E se acompanhou a imagem que produzi até aqui, sei que não preciso mais gastar palavras para explicar o processo que está me levando a estar neste texto, uma vez que a esta altura já deves saber dos que servem de bicos para minha dupla de meninas de penas – as aves “voadeiras” do chão (as mãos).
Enfim, há dias em que ficamos inquietos por conta de um monte de coisas que precisamos fazer ao mesmo tempo. Gosto disso. O desassossego é bom. Contudo, humano que sou, faltam-me elementos para completar algumas vontades claras que ficam às sombras do que preciso dizer. Se quiseres saber mesmo o que levou minhas meninas a ciscarem por aqui, então digo: foi o fato de que estive pensando sobre a melhor forma de abordar o Simbolismo na Literatura, para meus alunos. Complexo, admito. Gostoso, confesso. No entanto, para jovens menos pacientes, falar em Baudelaire me pareceu estranho para começar, sobretudo se abordar as origens do tema (teoria), que encontra suas raízes em outros poetas e articulistas franceses. Mas – ufa! – para minha sorte, enquanto os bicos de minhas galinhas catam os grãos por aqui, pensei na poesia pura para iniciar a discussão, já que minhas aves andam a me servir de símbolos para este terreiro todo de dentro de minha cabeça.
Sim, meu amigo! Acho que começarei pelo coração. E não me venha com piadinhas de que também curte um coraçãozinho de frango no espeto. Não falei em espetos, sabe disso! Só não vou seguir a teoria de imediato (pesado), farei o inverso. Vou expor logo dois poemas: um de Baudelaire (“O albatroz”, da obra “As flores do mal”); outro de Cruz e Sousa (ainda não decidi qual). E não, não os exponho aqui, falta espaço para tanto. Além de tudo, só vim mesmo foi para pensar. E como a terra está limpa e já posso ver o desenho que os milhos fazem pelo chão, me vou.
Ah, só lamento que minhas galinhas não ponham ovos, também! Na certa que seria agradável comemorar esta lucidez desembaraçada com uma boa omelete. Estéreis que são, venham aqui amiguinhas, deixe que eu lhes sirva de ninho. Agora descansem...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

OS SUBSTANTIVOS E SEUS GRILOS

Comuns, próprios, concretos, abstratos, simples, compostos, primitivos, derivados e coletivos. Enfim, eis os substantivos.
Pois então. Na grama da gramática o grilo é visto como COMUM. Só que no meu quintal, de preferência à noite, eles (os próprios grilos) não acham isso não. Acreditam que – pela força de sua música – a Lua só aparece mesmo é para vê-los ‘violoncelar’. Não sabem que as serras que levam nas perninhas servem é para repartir o tempo em dois: o dia e a noite. Mas e se eu nomeasse cada um deles e chamasse um de Zé, outro de Joseph – que é José em alemão – e continuasse o batismo até o infinito de meu gramado? Eles seriam PRÓPRIOS, então? Não fariam mais parte daquele conjunto comum “de-chama-Lua”? Daquela orquestra de violoncelos da tardezinha? Ah, sim! Na certa que teriam habilitação para existirem sozinhos. Será que seguiriam carreiras solo? Bom, e por que não? 
Outro dia um menino desses (vou chamá-lo aqui de Bach) pulou sobre minha janela. Rápido, concentrei a mão em concha e o prendi entre o vão e a palma. Fazia cócegas. Parecia tão CONCRETO... “Sim, eles sempre me tocam com suas melodias.” – pensei – “Hoje fui eu que toquei um.” Sei bem que suas “nãoezas” comuns precisavam partir. Não queria que se transformasse em completa “saudade” de seus irmãos, daí viraria ABSTRATO, como suas canções. Sabe, acho que não deveria ter-lhe dado nome! Soltei-o. Vai Bach, volte a tocar com teus companheiros.
Atente a isso. Os grilos, quando o céu está arejado por estrelas, também fazem o papel de “chuva”, que é um substantivo SIMPLES, “e é preciso ser muito bom para ser simples, guri!” – já dizia meu pai. E eles são mesmo. Inclusive, na falta daquele chuvisqueiro que nos ajuda a pegar no sono, nos vêm como suprimento e continuam conjugando o que ninguém mais pode conjugar, ou muito menos guardar: o verbo chover. Sim, eles chovem para acariciar nossos ouvidos. Nossa! E para isso nem se importam em tornarem-se COMPOSTOS. De grilos passam a “guarda-chuvas”, “guarda-noites”, “guarda-sonhos”... “Maestros” DERIVADOS do PRIMITIVO “mestre” que, em algum canto, deve morar em meu gramado.
Sabendo de tudo isso, difícil é concluir o que seria o exato COLETIVO de grilo. Não, não encontrei, mas como os considero estrelas da boa música posso chamá-los tranquilamente de “constelação” ou “rebanho”. Por que rebanho? Ora, nem tudo são flores e concertos, há dias em que dá para ouvir quando a Noite resolve pastoreá-los – rebanho bem difícil de organizar. Mas como não sou pastor concentro-me nos dias bons. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

CONSELHO DE ÉTICA

Meu pai, o Zé das Dores,
um outro tupiniquim anônimo,
sempre repetia o seguinte:
"Fio, não nascemo rico,
cuida do teu nome
cadeia foi feita pra pobre e preto home.
Mestiço que nem tu, é alvo acertado de espingarda torta.
O resto é contigo, não digo mais nada.
Mão lavrada como a minha
só sabe mesmo é de enxada."

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

DEDOS PELADOS, PÉS ENCHARCADOS...

Pois então. As férias acabaram. A vida precisa seguir aqueles fazedores de caminhos, que são os pés. Para eles já bastam de bacias cheias de água morninha e sais preguiçosos. Quanto aos seus companheiros, os dedos, eles, mais do que ninguém, precisam deixar de lado a nudez das chinelas fios-dentais e calçar o bom e velho all-star – ah, e como esses ordinários gostam de andar pelados! Às vezes até os censuro: “Controlem-se, rapazes! Assim é demais, pô!” Mas não há ouvidos, restam “olvido” (no sentido de esquecimento). É. Eles me ignoram mesmo. Parece não saberem que é hora de apertarem-se dentro dos tênis e porem-se no chão. Porém, espertos como são, desconfio que fazem-se é de ‘dessabidos’ de suas obrigações. “É bom que se vistam logo, minha gente!” – reclamo outra vez – “Precisam ajudar no equilíbrio dos passos. Quanta enrolação! É importante. Vamos logo!”
Verdade, eles me dão um trabalhão. Nossa, e como são teimosos, esses meninos! Acostumaram-se fácil ao descanso do ‘nada-pra-fazer’. Acho que é por isso que ultimamente os horizontes parecem desorientados. Os pés é que lhes tiram à embriaguez das distâncias, cavam pegadas neles. E se os bonitos estavam embaciados e os dedos fazendo-se de surdos e descansados, não há distância que possa existir para o restante do corpo, sobretudo aos olhos. Mas deu. Vou forçá-los, uma vez que se continuarem assim daqui a pouco estarão virando raízes. Vamos lá, gurizada! Não sou árvore. O mundo chama. Bora! Bora!  
Sim, vesti-los é como vestir bebês. Ponho até talquinho. Depois enrolo uma meia, ponho em um; outra, ponho noutro. Os tênis vêm depois. Querem correr. E pensar que foram eles que me obrigaram a comprar tantos all-stares. Bom, eu gosto!
Enfim, sem alternativas, tenho um pedido:
“Queridos pés e amigos dedos, chega de esconderem-se em um cruzar de pernas. Sabem que faço isso enquanto leio. Preciso disso para sair ao longe de dentro de mim mesmo. Desculpem se para isso não precisei de vocês. Contudo, agora preciso. Preciso que andem e façam uma estrada bonita para nós. Entendam o seguinte, o período de férias acabou e, se ainda estão cansados, alonguem-se, há muitas distâncias a serem percorridas. Saibam que enquanto relaxavam na bacia e desfilavam peladões, fiz trabalharem os olhos e os dedo. Só que neste momento preciso que não desistam de mim. A vida chama. Levem-me daqui. Difícil, eu sei! O que me dá a vocês outro motivo para não sossegarem. Querem atrofiar? Venham, tracem os caminhos que só vocês sabem desenhar. Prontos? Então vamos lá...” 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER QUE NÃO EXISTE...

Encontro milhões de vozes arredondando o universo, inclusive as minhas. Mas o engraçado mesmo é ser encontrado por uma voz quadrada, inquieta. Ah, gente! Difícil ter que afirmar (quando falamos, as palavras dão formas ao que pensamos, elas viram monstros de corpo e tudo o mais), porém preciso dizer, perdoem-me os otimistas: sim, há momentos em que estamos tão exaustos de tudo que até o nada nos parece cheio, daí ficamos ouvindo, e ouvindo, e ouvindo... E os ouvidos – coitados – ficam girando dentro daquela barrigona que o “sem-assunto” engravida.
Bom, neste instante, acredito que o leitor já não aguente mais. Claro, quer saber quem é essa mulher que não existe e o porquê desse título tão platônico. Pois digo. Ela existe sim, acabou de encontrar meu corpo em uma daquelas gorduras que te falei. Só que ao invés de uma gravidez, me fez parir algumas emoções.  
Bom, explico melhor:
Como eu já disse, há vozes que nos encontram. Cansado das paredes e do calor de estar lá fora, um sábado me tragou. Peguei uma cerveja, misturei com um livro da Clarice Lispector e fomos conversar. Surpreso com tamanha mestiçagem? Pois saiba que ambas possuem maneiras distintas de embriaguez, juntas descobri um ópio bem baudelairiano, enfim. E assim que acabei de ler, senti que uma paixão dessas de adolescentes havia me enquadrado de jeito – então, sofrido, escrevi o seguinte:
“Acabo de ficar bastante chateado ao terminar de ler uma obra que outro de mim já havia lido há uns quinze anos. Este último, confesso, sofreu mais, amou mais, sentiu até os ossos os sofrimentos da moça Macabéa (personagem de "A hora da estrela", de Clarice Lispector). Mulher de pouca existência, nordestina sem rumo e que mal sabia que podia, como todo mundo, chover, chorar... Sim, hoje sofri, não pela leitura, mas com a sensibilidade dos dedos que criaram essa criatura torta, mas tão torta que a vida dela foi me descendo como cubos de gelo – uma novidade para os redondinhos que deixam preguiçosos os nossos sentidos.”
“Ah! Tarde bonita, noite perfeita, mesmo que tristonha, na companhia dessa obra-prima... Ainda não leu? Então não leia, vá dormir. Por hoje basta, já chega eu ter me apaixonado por esse fio de pessoa que, por não existir, acabou por me fazer mais existente.”
“Boa noite!”

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

FALTAM LETRAS...

Há dias em que fico observando os detalhes das pequenas coisas. Nem sempre tudo me vem na hora, preciso escrever para reavivar os vivos daquelas cores da primeira vez. Portanto, deixo os dedos revelarem as fotografias de minhas memórias. Umas recentes; outras distantes; e aquelas enfeitadas pela invenção de meus textos. Todavia, os olhos é que fazem a parte mais fácil: capturar. Já os ouvidos, estes sim cutucam as vistas para o lado que apresente melhor foco, uma melhor luz. As mãos, por sua vez, são responsáveis pelos roteiros, ou melhor, pelos pós-roteiros, uma vez que a vida só se faz ao viver. Isso mesmo. Escreve-se tudo depois. Exatamente como o inverso do cinema, minhas “escrevinhações” funcionam assim: com a direção de uma cena às avessas, que acontece primeiro para só depois ser roteirizada.  
Credo! Acaba de se soltar a tecla “E” aqui de minha máquina. Outro dia foi a “A”, mas arrumei. O que torna difícil este retrato. As memórias vêm e vão muito rápido e que falta faz um “E” ou um “A” na composição. Não poderia um “K” me abandonar? Este sim desgasto menos, acho que não tenho nenhuma boa recordação que se desenhe com ele. Bom, de qualquer maneira, ando mais devagar. Saquei o botão e agora me perco em palermices vagarosas capengadas pela falta do meu querido “E”. Logo hoje que gostaria de fotografar a minha filha (a Eduarda) neste, que se tornou, um penoso pós-roteiro de perna quebrada. Mudo de foco. Pois, assim como eu, meu computador parece estar ficando velho. Melhor falar de velhice, então. Vamos lá!
Onde eu parei mesmo? Ah, sim, sobre estar ficando velho como meu teclado. Bom, pensando nisso, sinto que o tempo, às vezes, sopra ventos redondos. Redemoinha sobre nossas cabeças e leva alguns escuros da cabeleira da gente... Minha avó tinha razão quando gritava: "Já pra dentro, guri! Redimunho na rua é poeira que o diabo arredonda para nos prendê na soltura de dia santo! Deusulivre!”
Ah! e hoje tudo isso me parece tão ontem...
Pois então. Tecla quebrada. Irritação da idade... Quando ficamos frustrados não é muito bom ficar olhando pela janela. Parece que ela nos pensa, e esses pensamentos são perigosos. Funcionam como vaga-lumes assanhando-se para a noite (e sempre à noite...). Se de dia não os vemos, é porque precisam de escuros para melhor iluminar os ‘ali-por-dentro-da-gente’. 
Num desses dias de vento, inclusive, estive pensando. “Ai que medo de ficar velho. Medo de esquecer, de morrer. Acho que vou deixar minha esposa ciente de onde guardo meus arquivos. Assim, em um futuro (espero que) distante – quando meus dedos estiverem já mortos –, talvez ela possa publicá-los nas “tijolações" de em um livro, porém sem o peso de meu receio, caso nunca se venda nenhum. Mortos tornam-se bons (quero tirar proveito disso), mesmo que nas bolinhas barrocas dos rosários que são cantados, apenas, nos funerais. Está certo, depois, naturalmente, sei também que se desfiarão a rolar, junto conosco, num tempo breve de espalhar lembranças. Contudo, quero tentar isso antes de ficar vagalumeando até, aos poucos, ser esquecido nos escuros do pó de onde voltarei a poeirar vazios.” Então, só então percebo que não sou eu que vario, é o tempo que me varia – nos varre.