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sábado, 26 de dezembro de 2015

O VELHO ANO NOVO DE ONTEM...

Eu amo tudo o que foi/ Tudo que já não é... (Fernando Pessoa)

Há pouco, enquanto observava as cores da rua, percebi um casal cheio de sacolas nos braços. Entre eles, parecendo faceiro, havia um menino de aproximados oito anos de idade. O guri andava firme, cadenciando os passos aos dos adultos... Mas pisquei. E logo aquela fotografia boa me veio preta e branca, metamorfoseando-se em outra que nunca tiraram de mim.
Conto:
Naqueles mil novecentos e oitenta e tantos não havia tantos carros como existem hoje. Telefones e automóveis eram coisas de ricos. Sendo assim, todos os finais de ano seguíamos sempre a pé e em passadas firmes para comemorarmos as festas na casa de meu avô. O lugar era difícil de chegar, confesso. Nesses tempos, os ônibus não passavam por lá – em picada de roça só as carroças parecem não sentir a estreiteza do “ter-que-chegar”. Afrouxávamos? Bem capaz, caminhávamos mato adentro cheios de sacos e sacolas de alças. O descanso acontecia apenas por alguns instantes quando meus pais sentiam que lhes cortavam as mãos. Estranho, mas no interior é bem assim: viola no saco, sorriso no rosto e passos largos para chegar antes da coberta da noite apagar os caminhos à frente do nariz.  
Chegávamos sempre à tardinha. Bem a tempo de observarmos o medo brilhando nos olhos das crianças da casa. O Papai Noel era bastante brabo. Ali todos se referiam a ele como “Chrisquinte”, ‘caboclamento’ de algum termo germânico, me parece. Ele carregava uma varinha fina e, assustador, obrigava os pequenos a se ajoelharem para rezar. E como eu achava graça de tudo isso! Curtido de tanto assistir televisão, sabia que tudo não passava de uma farsa. Contudo, visitante que era, seguia no embalo desse bonachão de barbas fajutas. Não estou censurando, se é isso que o leitor anda pensando. Preciso esclarecer uma coisa. Luz elétrica só chegou por lá há uns quinze anos. Rádios? Creio que se poupavam as pilhas. Quanto às bodegas, todas se encontravam distantes da localidade. Mas essa é outra história, enfim. O que sei é que, uma semana depois, tudo se iluminava muito mais claro do que os ‘réveillons’ de hoje. Tantos estouros que...
PISQUEI. Confuso ter que retornar a mim mesmo e perceber que a rua já está vazia. Não acredito, perdi aquela família ao longe do horizonte de meus próprios interiores.
Sim, algo acaba de soprar aqui por dentro. Ah, e como esse vazio aperta... Dói. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A CULPA É DOS PROFESSORES?

Assim como tudo que existe vai encontrando seu final, o ano também se fecha. Ópera longa e, para alguns críticos, pouco afinada. Nas escolas, lugar do ócio para alguns, os poetas redigiram seus conCertos, e os conSertos também. Só que o dito popular, neste caso, às vezes é imposto como razão de ser: “dança-se conforme a música.” Será? Bom, coincidência ou não, acabei recordando uma citação de Machado de Assis. O mestre escreveu o seguinte: “A vida é uma ópera, e uma grande ópera. Deus é o poeta; a música é de satanás.”. Leia-se assim: a escola busca organizar o poema para tentar acertar aquele ritmo torto e (des)harmônico que volta e meia vem de fora, de uma sociedade viciada pela lei do menor esforço. O que não nos surpreende quando, dias antes da formatura dos filhos, mães nervosas aparecem para tentar afinar a melodia que elas próprias deixaram de ajudar a calibrar ao decorrer dos ensaios de seu músico – e é preciso exercitar cada partitura antes de executá-la em público.  
Por outro lado – enquanto pai –, tenho medo de estar cometendo pecado ao tentar formar filhas que carregam a educação, a palavra e a inquietação intelectual como pauta a ser seguida pelas teclas de algum piano velho. Se o mundo não mudar, elas serão devoradas por uma plateia surda e cuja cultura é a da esperteza em repassar suas culpas para outros afinadores. Espero não estar preparando comida para Quimeras famintas. O que me faz lembrar um fragmento de uma das crônicas de Nelson Rodrigues: "Durante 40 mil anos, o pateta sabia-se pateta e como tal se comportava. Os melhores pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Mas em nosso tempo, e só em nosso tempo, os idiotas descobrem que estão em maior número. E, então, investidos da onipotência numérica, querem derrubar tudo. Diz o bom dr. Alceu que o grande acontecimento do século XX foi a Revolução Russa. Errou. Houve e continua uma outra muito maior, sim, muito mais profunda: – a Revolução dos Idiotas."
Infelizmente a citação é atualíssima, lamento muito, pois sou de um tempo em que passar de ano era sinônimo de trabalho e dedicação. Tempo em que (se reprovássemos) nossos pais cobravam de nós, não do professor. Passar ou não passar? Passarão? Passarinho? Bom, o que sei é que o gato sempre espera pelo jantar, assim como os bons ouvidos gostam de esperar uma sinfonia bonita. Exatamente como a Nona, elaborada a partir de um poema de Schiller e mestiçada à música de Beethoven. O que aconteceu nessa mistura? A ode à alegria, meus amigos!
Putz! Acho que estou ficando velho. Devia aceitar que a culpa é só do maestro, mais fácil. O que acham disso? A boca do gato, ou a Ode à alegria? Canta passarinho.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

UM ENCONTRO COM GILBERTO FREYRE

Porto Alegre. Nada me alegra em uma viagem dentro de um ônibus do SUS (Sistema Único de Saúde). Sair às quatro horas da manhã. Conservar-se livre dos pensamentos de ter que estar em outro lugar. Perambular por um dia todo em ruas estranhas. Desafiar o tempo para uma briga que não se pode vencer... Ah! Como tudo isso vai se engordando dentro de mim. Tornando-me sabido de que não é bom saber dessas dependências. Nisso, nos pensamentos, vou ouvindo as vozes orgulhosas de meu pai, tudo sem que minhas pernas ouçam – é claro: “O Dilso é pobre, mas tem gosto de rico. Ele tem bom gosto.” Pois é. Minha riqueza anda estreita. Impossível comprar alguma coisa com ela, sobretudo, a saúde. Difícil pagar um médico falando a respeito de uma virtuosa execução de Bach. Ilógico ir à farmácia e tentar encantar com poemas (em troca de algum remédio) a um farmacêutico estranho e avesso ao que não for exato e capital. Puxa! Tenho só isso para dar, sou rico de inquietações, de desassossegos, de nadas no plural...
Foi amargo, mas logo percebi que dessa vez quem se enganou foi meu pai: não se pode converter cultura em moeda. Bem triste constatar que o não saber é que, verdadeiramente, nos torna melhores, pois enxergando pouco, sentindo pouco, sofremos menos, adoentamos menos. Sim, a verdadeira riqueza está na ilusão de que estamos sempre bem, basta fazer uma oração (e claro, há anos não faço isso). Adquirir conhecimento tem dessas coisas, vamos ficando, para algumas coisas, céticos e condoreiros – cientes de que quem nos devora acaba sendo o mesmo condor que nos fez voar, ‘condoreirar’ pelos céus e enxergar clarinho o que se passa neste chão.  
Mas desta vez meus pés me levaram até uma livraria, uma bem próxima ao hospital. (Sabe, tenho uma regra: “livros e pão não podem faltar em mesa digna”.) Quando percebi que um “Casa-grande & senzala”, de Gilberto Freyre, exalava um cheiro fresquinho de padaria. Apalpei e, lógico, comprei. Dirigi-me para frente do “Clínicas” e conversei por horas com aquele Freyrão, tanto que nem consigo lembrar como foi à volta para casa. Contudo, indignado por ir entendendo um pouco mais sobre a história dos negros e mestiços, aqui no Brasil. Aos pouco fui sentindo por que eu estava ali, um gordo vestido em um corpo magro, marrom e, historicamente, defasado.
É, não foi à toa que Lima Barreto morreu na miséria. Mulato culto demais. Cor errada demais. O que melhorou? Nada. Tudo continua ali, escondido, varrido para debaixo do tapete. Quanto pó ainda precisamos respirar? Como é escuro aqui. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

MÃOS TALENTOSAS

Não sei bem os talentos que carregam as mãos. Toda vez que penso nelas vejo clarinho este verso de Augusto dos Anjos: “A mão que afaga é a mesma que apedreja.” Difícil sair dessa dicotomia, já que somos a soma de benes e males relativos, abusados e, por que não dizer, necessários.  
Enfim, pediram-me para escrever a respeito de um filme homônimo ao título desta croniquinha. E é óbvio que ela recebeu o nome por conta disso – pouco criativo, eu sei. Desculpem-me! Contudo, tratando-se de uma história bonita (assisti) e sendo (de minha parte), também, franco, vejo rebarbas romantizadas bem no miolo de algumas cenas – se comparadas à vida, ao tempo e à Escola real, lógico!
Resumo um pouco para que fiquem a par do que digo: baseada na vida do Dr. Benjamin Carson, o filme relata as agruras e lutas de um homem afro-americano para chegar ao tão sonhado cargo: o de neurocirurgião. Carreira que se desenha já na infância, a partir do momento em que sua mãe firma regras para com os seus (há coisas que só elas podem e percebem).  Dentro disso, como em toda verdade hollywoodiana, é bem difícil não se inspirar e se emocionar, pois no cinema, diferente da vida, as arestas são todas cortadas. A realidade é imprecisa, o cinema positivo não. Se não cortassem algumas coisas, obviamente, não suportaríamos, além de nossas cargas, carregar as “não-precisanças” de cada detalhe dos personagens. Seria chato. Somos chatos.
Mas não se enganem, não estou denegrindo a obra, pelo menos não enquanto obra (gosto dela). Apenas deixo claro que o professor em sala de aula, carregando apenas um par de mãos, precisa lidar com alguns pares de realidade. Pares que nem sempre podem ser ímpares, uma vez que é difícil dar conta de problemas extraclasses (existem coisas que nos fogem e não nos são permitidas). Lutar é importante, sabemos. Ler, como o personagem do filme, mais ainda. O problema é que o mundo é feito de chão e mãos, por isso não é tão simples assim, não é possível tirar partes para ser projetada em uma grande tela bonita de cinema. Ele vem inteiro.
O caso do Doutor é bacana, sem dúvidas, até muito triste, só que atemporal. Salvaríamos outros ‘Carsons’ se tivéssemos a chance? Claro que sim, entretanto daí não seríamos mais professores, seríamos pais. E duvido que alguém se habilite ao cargo. Isso seria impossível. Por isso a grande protagonista foi a mãe. E desse modo, só desse modo (repito) seus professores puderam ajudá-lo a mudar o mundo. Pois é. Mãos de professores só servem para abanar as brasas, não tento brasa, não há fogo e nem talento, só mãos abertas para um afago e fechadas para si mesmas.   

terça-feira, 24 de novembro de 2015

VOCÊ EXISTE?

Bastou um pingo para que o universo inteiro mudasse. Se ele acontecesse diferente, seríamos outros. O que dizer então da chuva?

Às vezes nos esquecemos de que o outro é o outro e que também somos outros para ele. Pois é. Como o dia, existem situações em que é melhor fechar-se. A experiência nos obriga a ‘noturnar’ de vez em quando. Tarde vamos sentindo que o fígado precisa estar saudável para continuarmos certa existência – mesmo que breve.
Verdade. Há momentos em que nos resta a impressão de que estamos virando ostras; em outros, clarões: multidões solitárias.
Mas nem tudo é desespero e extremos existenciais. A música e a literatura têm o poder de ‘reacordar’ dos cantinhos aqueles meninos que fomos (de abrir o que estava fechado nessas multidões solitárias das quais falei) – e a filosofia, sempre arteira, faz questão de deixar os olhos faceiros ao iluminar toda essa ‘refestelação’. Sem isso cairíamos num ostracismo perpétuo e medroso em relação a nós mesmos, às pessoas e às coisas. E pensar que tudo acontece dentro da gente...
Quem nunca teve medo de passar pela existência sem sequer desenvolver certa consciência de ter de fato existido? Você existe? Eu existo? Nós existimos? Tem certeza disso? Que bom! Agora, para continuar, exista para mais alguém. Assim fica mais um tempinho por aqui. Boa maneira de driblar, por hora, aquele esquecimento inevitável e, por conta disso, temido, pois só existimos assim, vivos e conscientes – pelo menos para nós mesmos.
Então, só somos de fato quando temos consciência de ser – a existência nos exige este espanto. "Dessabidos" disso, ainda nem nascemos. Estamos apenas grávidos de nós mesmos.  To be, or not to be, that is the question
Sim, amigos, escrever tem lá o seu valor, uma vez que, cedo ou tarde, mesmo com os pensamentos quietinhos, voltamos de onde estivermos pelo simples empréstimo das vozes de algum curioso qualquer. Alguém que saiba despertar aquela ‘conscienciazinha’ que tínhamos – aquela luz.
Putz, como é difícil existir! Agora que fui pensar nisso:
"Cogito ergo sum" (Penso, logo existo).
Não, não me esqueci da pergunta. Retomo: Você existe? Olhe para suas mãos, para este texto. Olhou? Então acaba de ganhar e dar existência, já que foi você quem os pensou.
Bom, acho que não deveria escrever enquanto bebo, dá nisso! Desculpem.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

UM GATO NO FORMIGUEIRO

Não é segredo, todos sabem que gosto de bichanos. Encontro sempre um silêncio pouco mais afinado ao lado de alguns deles – são mestres nesse tipo de afinação. Houve um tempo em que até minhas leituras não se completavam sem ter um amigo desses por perto, acostumei-me com seus ronrons. Sem eles acabo existindo menos e ‘desengordando’ vontades maluquinhas por acontecerem maiores. Exatamente por isso resolvi pôr o nome de minha primeira ‘afinadora’, de Sofia (sabedoria, em grego). Preciso explicar o motivo? Enfim, aprendi com ela a ser eterno, pois, ignorante à brevidade da vida, andava pelo mundo como se pudesse viver para sempre, e podia mesmo. Diferente de outros animais (os que chamamos tão orgulhosamente de irracionais), nós é que gastamos boa parte dos dias pensando e nos preparando para o fim: à morte.
Nesse caso, chutar a bola sempre para frente nos coloca em uma posição delicada, se comparado aos ‘de-sete-vidas’. Acreditamos em platonismos, ‘depois’ e ‘aléns’. Acabamos, de maneira inevitável, nos esquecendo dos ‘agoras’ e de que o hoje é que é o futuro de ontem. Em outras palavras, estarmos cientes de que nossos corpos têm prazos de validade vai nos tornando breves e incapazes de aproveitarmos integralmente um belo carpe diem. É isso: saber que vai morrer não é o mesmo que saber que precisa viver. Observe os felinos, os cães, os pássaros...
Visto isso, preciso contar sobre o dia em que, pela primeira vez, vi um gato implorar por sua própria vida. Estávamos eu e minha filha, a Caroline. Do carro ela avistou um montinho amarelo sobre um formigueiro. Andei pouco mais devagar e constatamos ser um gatinho debatendo-se, ao mesmo tempo em que era devorado pelas formigas. Na calçada, perto do filhote, um homem mais velho ria daquele desespero – havíamos encontrado o culpado. Paramos e pegamos o bicho (não o velho, refiro-me ao gato). Levamos para casa, demos banho e colocamos remédio em suas ‘carnes-vivas’. Era fêmea, recém-nascida e estava bem fraca. Sendo assim, fomos alimentando-a com a ajuda de mamadeiras e improvisos, enfim. E isso faz uns dois anos. Como ela se chama? Ah! Maria de Lurdes (a Malu). O nome provém de uma personagem criada pela escritora Talita Rebolças, obra que minha outra filha estava lendo naquele momento.
Bom, o tempo passou. Hoje, de tão faceira, a chamamos, também, de Maluca, uma vez que não se preocupa mais com os sadismos de ‘bons cristãos’. Reaprendeu a se eternizar, mesmo que alguns hematomas nos lembrem do contrário.  Quanto a ela? Deve nem saber daquela pequena morte, acho que esqueceu! É o que espero!

sábado, 14 de novembro de 2015

MODERNA CASA GRANDE & SENZALA

Vivemos numa repetição constante de valores que já deveriam ter se colorido. É certo, de um lado pessoas de cor ainda pagam as contas das vidas roubadas que, historicamente, assolaram a existência de seus antepassados; de outro, os herdeiros (dos donos dos primeiros) que usufruem de suas raízes ‘aceitáveis’ pela ‘invenção de padrões’ que eles mesmos estabeleceram. Não acredita? Visite as fotos de alguma página social, ou averigue setores entendidos como “elites”, em nossa região. Contrário a esse tipo de atraso, confesso que não sei se há necessidade de reconstruirmos outras bandeiras por aqui, pois não somos Alemanha, não somos África, não somos Itália... Nascendo no Brasil, o que somos então?
Acompanhem comigo. Imagine que se ao invés de decorarmos nossas cidades com manifestações “neogermânicas” e saudosistas, fizéssemos o mesmo com as da Angola? Chato, não? Saiba você que mais da metade de nosso país é constituído por pessoas negras. É preciso encarar seriamente este fato. Estamos na América, e para a vergonha geral, no último país do mundo que aboliu a escravidão. Pensando nisso, é bem triste dar de cara com tanta divisão. Penoso constatar, no auge de um tempo “bem informado”, que a coloração da pele ainda importa por aqui. Um bom exemplo disso são as Escolas: em um extremo, o arco-íris étnico (as públicas); no outro, uma pequena Europa (as particulares), ambas congeladas em prol de atrasos, bem como desenvolvimentos pensados para contribuem a um eterno retorno social, ou seja: “eu serei tua mão-de-obra”; “tu serás o meu chefe, o meu Sinhozinho!” – eis a hegemonia que mais parece uma moderna versão de Casa Grande & Senzala.
Ah! como é difícil ter que ouvir de alguém. “Fiz Senai, estou me puxando nos estudos, mas parece que, ao me verem, tudo vai por água a baixo, me é negado o emprego.” Olho para a pessoa e constato o que o leitor já previu: trata-se de um ser negro ou mestiço. E como dói ter que responder sempre a mesma coisa: “Amigo, sabe por que pedem sua foto anexada ao currículo? Nossa mentalidade congelou no século 19”. 
O que me faz recordar de uma bela reportagem escrita pela excelente jornalista Heloisa Corrêa, no jornal Gazeta do Sul (quarta-feira 10/11/2015, p. 4). Era sobre uma menina que ganhou um concurso de beleza e que sofreu com comentários, no mínimo, criminoso por conta de sua cor. Mais uma prova de que devemos ler muito, sobretudo às lavras de jornalistas bem informados e que nos presenteiam com denúncias lúcidas e equilibradas. Precisamos evoluir, gente! Vamos tirar os véus. Abramos os olhos. Leiam. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

PROFESSOR: PROFISSÃO DE FÉ

Ainda ontem conversava com meu espelho: “Modernismo, texto dissertativo-argumentativo, verbos dissentis, Romantismo, objetos direto e indireto...”. Até que no processo acabei me esquecendo de pentear os cabelos. Putz! Agora eu lembro, era isso que fui fazer. Enfim, caminhei pela casa e – descabelado mesmo – pensei: “Vou trabalhar a linguagem num poema de Oswald de Andrade!” Sentei e pus-me a procurar. Acabei esbarrando numa gramática. Olhei o que havia nela. Passei para outro livro... “Ah, é este! Vem pra cá Simões Lopes Neto!” Pronto, folhei. Reli um dos contos e, novamente, me emocionei com ele. “Como está diferente da última vez!” Abri o computador e escrevi (sou desses professores que gastam a vida escrevendo). ‘Boi velho’ foi minha escolha. Pronto, pude pensar melhor nos dois – no que leu e no que releu – ambos eu mesmo. Mas e as aulas? Precisava pensar mais. Onde foi que parei? Já sei... Mas o Guimarães Rosa me levou para outro lado. Prorroguei. A peregrinação me fez assim, fiquei com os dois. Pronto, devem bastar. Escrevi mais um texto, queria provar que dava mesmo. Tomei um banho (sem tirar da cabeça as aulas que precisava dar) e fui. Só que tive que voltar. Sim, esqueci-me de pentear os cabelos outra vez. “Droga, nem tomei café. Deixa pra lá! Vou pôr o chapéu.”
“Bom dia!” Nada. Quem não ‘barulhava’ ‘barulhava-se’ com um fone de ouvidos enfeitando as orelhas. Olhei para o lado, um menino de costas. Para o outro, uma menina braba por conta do último sermão. “Chamada!” Esperei uns minutos. E lá se foram quinze outros até tudo se estabilizar, pelo menos relativamente. “Guarda o celular, rapaz!” E mais beiços. Cultivei novos ranços ao ter que elevar a voz. Prossegui. Afinal, tinha muito a falar (Desejaria ouvir, claro! Quem dera!). Olhei para o relógio e percebi que aquilo tudo devorou o tempo que tínhamos. Bom, até que não foi de todo mal. O dia passou muito mais rápido do que eu havia previsto. Um novo carpe diem exigia sua vez. E lá estava eu de fronte ao espelho novamente...
‘Não trabalha. Professor não trabalha!’ Mínima que já virou máxima entre os clichés mais utilizados no Brasil. Se concordo? Amigos, neste exato momento estou pensando numa possível aula, a coisa não nos abandona! Por isso não me impressiona quando, de outro canto, alguém afirma ser esta uma profissão de fé, de esforço. Sou feliz nessa vida? Óbvio que sim. Contudo, o desafio diário nos envelhece. Há pouco retorno. Dos muitos, poucos salvamos. Acho que estar aposentado é isso: passear na rua e observar os que deram e os que não deram certo. E talvez, só talvez o tempo possa nos dizer se aquilo tudo valeu a pena – e geralmente valem. Acredito nisso. 

domingo, 8 de novembro de 2015

O BOI VELHO DE SIMÕES

A vida se resumia em trabalho duro. Todos os dias seu couro era riscado por varadas secas. O sofrimento acostumou-se em seu lombo. Na canga tinha existência cativa e dolorida. Quando zumbia no ar a vara fina, sabia que logo atrás vinha o impacto da dor, precisava andar.  A dureza lhe fez entender à rotina do campo: APANHAR, puxar arados, APANHAR, puxar carroças e APANHAR no final do dia, carregando um enorme ípsilon de madeira sobre o pescoço, isso para não cruzar a cerca.
Jovem, sua força era descomunal. Como então permitia que lhe castigassem tanto? O que havia de errado naquele animal? Não era ele, meus amigos! Para o velho senhor, seu dono, o bicho não merecia respeito. “Ele não tem alma!” – repetida gargalhando ao sacudir o relho – “Matuto não sente. Besta não sente, compadre!”
Mas um dia o boi ficou velho. Mal podia se mover. E já que perdeu a serventia, decidiram então matá-lo. Puxaram-lhe firme. Levou o dobro da surra que de costume, estava difícil levantar. Assustado das bancadas, mugindo, como quem pede calma, ficou de pé, ganhou forças e movimentou-se até o destino. O rodopiar do esmeril de pedras, espichou uma língua de fogo em seu focinho. A adaga parecia já amolada. Dois homens, um segurou o pescoço e o outro, de um golpe só, estocou a facada. Pobre bicho. Não entendeu a mensagem. Com a boca engolfada de sangue, se moveu. A violência era tão frequente, que mal sabia a diferença entre varada, chicotada ou grito. Aquela dor era nova. O resto de suas forças levou-o ao “todo o dia”. O golpe o fez caminhar mais uns metros, entendeu que precisava. Ajoelhou-se à frente da canga e tombou o pescoço à espera de mais um risco no lombo. Não veio. O boi velho ficou, e ali dormiu assustado – havia descansado pela primeira vez: estava morto.
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Recriei, a meu modo, um dos contos mais tristes e impactantes que já li em toda a Literatura Brasileira. Ele está em “Contos gauchescos”, de Simões Lopes Neto; o título, “Boi velho”. A cena final me deixou absorto por dias. Cumpriu seu papel de inquietar. Então achei prudente escrever este texto, pois entendi assim as imagens. Entretanto, claro, sugiro que o leitor procure o original. Incomparável o escrito. Cometi este plágio de propósito, tudo para te fazer chegar nele, no Simões. Sua fonte é primeira, limpa e te trará (espero) alguma purificação, alguma catarse. Seu toque é de universalidade, portanto, não há como não ser sentido aqui ou em qualquer outro tempo e lugar. Contudo, é preciso lê-lo.    

terça-feira, 3 de novembro de 2015

“NINGUÉM NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER.”

Nada me inquieta tanto do que as mulheres retratadas pela História, Filosofia e Literatura – e é para isso que servem mesmo, para nos inquietar. Não é de hoje que escrevo sobre isso. Revi muitas delas em algumas leituras que fiz. Descobri – claro! – que ninguém veio da costela de alguém, muito menos condenou toda a humanidade por uma simples mordida. A metáfora – acredito – vem de algum símbolo que represente o ato sexual. Corte uma maçã e verá duas genitálias femininas, uma no meio de cada parte da fruta. Acho que é por aí que se pensou esse ‘pecado’ tão medonho. 
Sim, ainda precisamos aprender muito para alcançarmos o equilíbrio, pois não há mais motivos para continuarmos levando ao pé da letra essas verdades. Perguntem a um biólogo, ele dirá (arrisco-me) que nas primeiras semanas após a concepção, todos já fomos mulheres. Depois sim é que, geneticamente, vamos sendo definidos. O que explica nossos mamilos: brotos que, se não tivéssemos nascido homens, poderiam, não necessariamente, alimentar outra vida. Pois então, nada no mundo é por acaso... Inclusive, em outra linha de pensamento, a filósofa e matemática Simone de Beauvoir deixou claro: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” (citação interpretada e condenada erroneamente por alguns ‘puritanos’ – no Enem 2015). Torna-se, porque ao nascer, a sociedade já a vai transformando, moldando-a para ser um tipo “aceitável” de fêmea. Por isso o “torna-se”. Entendido? Viu? Nem foi tão difícil.
Seguindo, vejamos alguns casos na Literatura:
Saibam que três nomes já me tiraram o sono: Capitolina, Diadorim e Desdêmona. Leio-as sempre como capeta, diabo e demônio. Nomes provindos da arquitetura de autores que não cometiam excessos, respectivamente: Joaquim Maria Machado de Assis, João Guimarães Rosa e William Shakespeare.
Capitolina, a nossa Capitu, foi vítima de um caso contado, unilateralmente (ela não teve voz na obra), por um doente da alma, um ciumento que não acreditava em sim mesmo, logo nem nela. Quem não se lembra dos diálogos interiores de Bentinho (o Dom Casmurro)? Já em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, a personagem, Diadorim, disfarçada de homem, fez com que seu amigo, Riobaldo, questionasse a própria “macheza” ao se pegar apaixonado por ela, ou por aquele que acreditava ser um homem. Nas linhas de Shakespeare, por sua vez, Desdêmona serviu de isca à ira do invejoso inimigo do mouro Otelo. Iago, sorrateiramente, o fez pensar que ela havia o traído. Fez dela um demônio, causando a morte da moça pelas mãos do próprio marido.
Nossa! E as mulheres sempre no princípio da causa e da culpa. Seja mordendo uma maçã, sendo acusadas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou, simplesmente, sendo elas mesmas. Saibam, senhores, que no final da Idade Média elas eram, inclusive, queimadas, não só pelos caprichos da época, mas pelas figuras atraentes que representavam. Muitas delas foram mortas por serem vistas como tentação do capeta, do diabo, do demônio, como queiram. Explico: quando um clérigo ficava excitado ao ver uma mulher (ele era humano), punha a culpa nela, nunca em si mesmo, já que simulava uma figura santa, um Santo Iago. Santiago? Ah, um Bento Santigo! Casmurrice divina? Chama purificadora? Sei lá. Só sei que a culpa era sempre delas.  
Enfim, acho que as coisas não mudaram muito. Sendo assim, achei positivo tornar tema de redação (do Enem 2015) “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”. A situação precisa mesmo ser maturada e seriamente discutida. E não, nada disso se trata de posição política, mas de reação intelectual de ambos os lados, se houverem. Há muita luta envolvida. E pensar que a menina Malala, ainda outro dia, levou um tiro na cara só porque ousou estudar. Impressionados? Todos sabem, no Brasil, em menor grau, coisas desse tipo ainda continuam acontecendo. Ora bolas! Em que século estamos mesmo?  

sábado, 31 de outubro de 2015

TODOS NÓS ESTAMOS SOZINHOS POR DEBAIXO DAS PELES...

Não adianta. Por mais que nos encontremos cercados de gente, no final das contas estamos sempre sozinhos. Neste sentido, ainda me lembro do dia em que morreu o ator Paulo Autran. Naquele tempo, como um pão fresquinho recém-saído do forno, a notícia recebeu mídia. Já eu, ainda ignorante aos fatos, liguei o televisor e, preguiçosamente, passeei pelos seus canais. Parei. Uma figura havia interessado meus dedos. Larguei o controle remoto e fiquei ali, numa entrevista que passava na TV Cultura. “Mora sozinho?” “Moro.” – respondeu Paulo àquela jornalista. “Sozinho?!” “Sim, saiba que todos nós estamos sozinhos por debaixo das peles.” Tratava-se de uma reprise colocada ao ar por conta do falecimento do entrevistado. Consultando mais algumas fontes, só então fui capaz de entender aquela perda, aquela exposição matinal. Nossa! Desde então aquelas palavras grudaram em minha cabeça: “Todos nós estamos sozinhos...”.  
Por muito tempo pensei sobre os dizeres daquele poeta/ator. Sei bem que todos já choramos. Chorar, sorrir... Tudo isso é natural. Há quem chore sorrindo, os que sorriem chorando e até os rostos que se calam, se fecham para qualquer um dos dois: pedras. Percebi então que nem toda lágrima se liberta, alguns encontros sociais exigem que choremos para dentro. Afinal, a norma diz: “Está só, amigo! E se derramar desinteresse em estar conosco, não haverá mão, pois está preso dentro de ti mesmo, estamos. Libertar-se não é possível, dispensamos tudo o que não reflita a nós mesmos. Se não for nosso espelho, fique em casa e sofra sozinho.” Daí minha vida de ermitão. Sou um anti-herói. Isso acontece quando as imagens nos vêm puras, de nós para os outros de nós.
Difícil entender, não é? Pois então explico de outra forma:
Medusa (a Górgona) é a melhor de todas as representações dos espelhos. Quando a olhamos, petrificamos, pois é quando percebemos que a feiura dela é também a nossa. Sim, só no reflexo dos escudos dos outros é que ficamos mais confortáveis para confrontarmos nossas próprias imagens. Elas recebem os filtros dos "tu és legal". E não, não dá mesmo para encarar diretamente nenhum "eu". Viramos pedras, daí (conhecem o mito). Perseu, por exemplo. Ele só conseguiu vencer(-se) desse modo, espreitando e não olhando para o que ele mesmo era, já que nenhum ego suporta um confronto tão direto assim. Aí está. A sinceridade é vista desse mesmo jeito: uma Górgona feiosa e cheia de cobras na cabeça, jardim de mármores que escondem profundas solidões.
Espelho, espelho meu... Não! Pare! Está louco! Jamais pergunte isso a ninguém! Queres virar pedregulho? Todos já andamos tão sozinhos... 

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

MINHAS 10 REGRAS DE CONVIVÊNCIA:

1-    Evite dar sua palavra; se der (custe o que custar), cumpra;

2-    Não entre em órbitas de falas egocêntricas. Perde-se muito, o universo é maior;

3-    Só aceite arrogância de quem tem o que arrogar – ouça e aprenda. Contrário a isso, afaste-se: longe se ganha mais;

4-    Controlamos os olhos; os ouvidos não. É impossível fechá-los. Sendo assim, mantenha os pensamentos claros para dentro de alguma outra lonjura, salvo se for importante ou inevitável;

5-    Só entre em guerras que possa ganhar. Sendo os motivos justos, entre assim mesmo;

6-    Aceite: nem todas as pessoas simpatizam com educação. Gentileza em excesso pode ser confundida com fraqueza. Para estas, aprenda a existir pelos tons que determina a situação – nem tudo é música;

7-    Se for interessante, fale menos do que é capaz de ouvir. O equilíbrio pede que se ouça muito para – só depois – falar;

8-    Nunca se entregue totalmente a alguém, jamais encontrará recíproca;

9-    Elogie quem precisa ser elogiado, mas entregue em poucas doses sua crítica, remédio amargo demais;

10-  Jamais se abra de maneira plena. Assim que tiver chance, poderá virar arma: a raiva engatilha isso – e a convivência se fecha.  

sábado, 24 de outubro de 2015

STAR WARS VII: O DESPERTAR DA FORÇA (DO PRECONCEITO)

Nunca pensei que um personagem pudesse gerar tanta polêmica. Depois da divulgação do trailer oficial responsável pela continuidade da saga (Star Wars VII, o despertar da força), contrário às expectativas, o filme sofreu ameaças de boicote. Algumas centenas de fãs, descontentes por se depararem com um protagonista negro, ameaçaram, na estreia, não comparecerem aos cinemas. A acusação, para o constrangimento de espectadores pouco mais inteligentes, se baseou em vigarices intelectuais dos tipos: pregação do “marxismo cultural”, do “genocídio branco”... Genocídio branco?
Amigos! Atentem a isso, não estamos mais nos anos 70 e 80. Naquele tempo – se prestarem atenção – não havia tanto espaço para grandes astros de cor, incluindo os filmes anteriores desta mesma obra. Sim, nos outros episódios eles ocupavam segundos planos nas histórias, época de transição, me parece. Contudo, hoje, não cabe mais tanto desrespeito. Bom, nunca coube. O que sei é que “a credibilidade branca” era sim o Império, a força que movia nossos “querer-ser” inconscientes – pelo visto ainda bem fortes. Reparem no Jesus europeizado pintado por da Vinci, por exemplo. Política, meus amigos. Política! “Mas isso faz uns quinhentos anos”, alguém dirá. Aí é que está.
Pois então, as redes sociais acabaram trazendo à tona (‘viralizando’) esta discussão que muitos já entendiam como encerrada ou, na pior das hipóteses, em reconstrução. Por outro lado, lógico, certas elites inventaram engodos bem eficazes para contornar isso. No que concordo com o antropólogo Roberto DaMatta quando nos informa que em nossos dias “o preconceito velado é uma forma muito mais eficiente de discriminar”. Não há mais problemas, desde que “essas pessoas ‘saibam’ e fiquem no seu lugar.” Entenderam os ‘pensamentinhos’ de alguns desses ‘fãs-alienautas’? A coisa anda mesmo solta. Apesar disso, pensando melhor, até é bom, assim podemos observar e identificar os “por-baixo-dos-véus” da imbecilidade.  
Observo – confesso – que o ‘ser-branco’, pelo menos aqui em nossa região, também faz parte do currículo para protagonistas, como se não houvesse credibilidade em figuras mestiças ou negras. Por conta disso, rogo por um tempo onde bastará apenas ‘ser’. Neste momento o leitor deve estar se perguntando: “Mas como ele sabe de tudo disso?” Ah, meus caros, sou mestiço, sinto na pele! Meus diplomas não valem tanto por estas bandas. Lugar obscuro onde a primeira impressão (empobrecidas por fatores históricos de colonização e preconceito racial) ainda são medidas de competência.
Por fim, desejo que este tipo de força retrógrada não esteja com você! Feio isso.

sábado, 17 de outubro de 2015

OS DONOS DA RUA

O mundo lá de fora acontece diferente dentro de cada um de nós... Tudo está no plural.

A rua é um lugar estranho. Ermitão, hoje ela se tornou quase uma adversária. Desliguei minha vontade de sair ao seu encontro. Do portão para dentro, confesso me sentir bem melhor. Maluquice ou não, o mundo fez de mim este estrangeiro.
Mas houve um tempo em que não era assim, nem eu mesmo era este que agora gasta os dedos escrevendo memórias. Naqueles outros de mim, nos meninos que fui, recordo que gostava do ar fresco. Despreocupado, tudo lá fora era como um enorme brinquedo, pois, contrário ao vai e vem, cresci em um logradouro sem saída. Carros, raro quando nos deparávamos com um. Éramos os donos da rua. Jogávamos taco, brincávamos de esconde-esconde. Quando nos era permitido, olhávamos seriados na casa de um amigo pouco mais abastado (só lá é que tinha televisão em cores). Enfim, havia sempre um motivo especial para começar o dia. Perdi, inclusive, as contas de quantas vezes subi e macaqueei sobre os galhos das árvores, elas também eram nossas.
Saudades! Nos anos oitenta não havia melhor diversão do que encontrar os amigos na esquina. O mundo de fora passava por ali. A bifurcação possibilitava o trânsito, mas só quando queríamos ver. Lembro que uma construção (hoje um mercado) nos abrigava em quase todas as tardinhas. Enquanto bebíamos um refrigerante de garrafa, a rotina dos adultos passava. Os tempos aconteciam diferentes dentro de nós. A vida era uma enorme aventura. Não, a ‘adultez’ ainda não sabia de nós. Bebíamos aquela “Celina” de lamber os beiços e esquecíamos às horas. Entretanto, gritos daqui e outros de lá faziam nos lembrar de que precisávamos voltar cada um para sua casa.
Ah, aquela rua! Nela me apaixonei por uma menina pela primeira vez. Senti também o peso das coisas quando fui obrigado a ganhar o mundo para fora dela. Nela tive infância. Soube o que representava um disputado jogo de ‘bolitas’ e de bafo. Senti a dor de uma chinelada na bunda sempre que fazia uma arte maior. Sim, minha mãe era tão braba que acabou desperdiçando meu potencial para política partidária. Conto: dias desse cheguei em casa me gabando ter furtado o carrinho de um primo. Ela nem pensou. O ‘pito’ pegou, a vara cantou e tive que devolver, aos prantos, a merdinha daquele objeto. Pois então, ‘desbrasileirei’, tanto que o ‘jeitinho’ não me cabe mais.
E hoje a rua ganhou saída. Virou quase avenida e se esvaziou. O que me devolve a ela fica nestas lembranças sangradas por estes dedos velhos que perderam a capacidade de escalar árvores e existir para fora de um livro ou de uma folha branca de papel. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CARTA DE UM PROFESSOR

Sempre quis mudar o mundo, mas não podia. Complicado. Por isso li bastante para modificar ao menos a minha percepção sobre ele. Baixei a cabeça por longos anos e me atrevi em inúmeras tentativas que só sabiam encher a vida de funduras. E nada. A leitura – acreditem – me deixou ainda mais inquieto, um cavador de buracos. Nossa! Precisava voltar, falar sobre o que se passava ali, nas interioridades. No peito, tudo estava complexo demais. A voz deixava de ser clara. Preocupado com isso, tive que me reestudar. Fui investigando a mim mesmo e de como poderia ser a mudança que tanto desejava acender. Quando notei naqueles outros da rua, um outro que não podia mais ser eu: um ‘lonjurado’ intricado e solitário (igualzinho a este texto). Sim, precisei mudar o foco para poder ver diferente, para permitir que os tempos (ora mais gordos, ora mais magros, enfim) se desenhassem de maneiras distintas dentro de mim. 
Meus dias passaram a se manifestar menos duros, desde então. Estava funcionando. Senti que poderia brincar com eles e com algumas vontades que, por fim, acabaram me deixando grávido de uma mudança necessária. Foi rápido, já estava passando da hora de dar à luz. Doía muito. Não dava mais para esperar. Peguei o bisturi e decidi pela ‘auto-cesariana’...: “Preciso de aaaaaaaaar!” – gritou aquele recém-nascido. Putz! Daí entendi perfeitamente o que tinha que fazer: um parteiro de vozes, era isso. Bom, acho que renasci junto com esse entendimento! 
Elástico, esta é a palavra que estava procurando. Cada um dos “dentros” espicha-se para fora. Bom, amigos, sabemos que nem sempre dá, mas quando nos alongamos juntos, o exercício acaba por nos levar mais longe. Aprendi com isso que o mundo pode ser esticado sim, basta cada um fazer a sua parte e se puxar.
 Sei também que não é fácil ser um esticador, um parteiro de vozes. Por isso é que no repuxo procuro avivar as palavras escritas, na reescrita – gosto dessa modalidade. Outro dia até escrevi as cinco verdade coletadas ao longo de minha experiência nas ‘escrevinhanças’, pois todo o cidadão – acredito nisso – precisa se colocar audível perante a sociedade. Nesse aspecto a ideia escrita recebe muito mais crédito do que a falada – espicha-se mais. Ela não se perde. Busca o mundo. Ganha ouvidos e retorna. 
Enfim, encontrei minha missão. Chato? Muito. Crítico? Demasiado crítico. Amante desse tipo de trabalho? Profundamente, já que aprendi a clarear os escuros dos outros dando luz aos meus. Sim, só sei existir desse jeito, meio fora, meio dentro, um mestiço no mundo, de mundos que se misturam e são mestiçados também.

sábado, 10 de outubro de 2015

OS PROFESSORES E EU

Dedicado demais. Será que tem vida? Amado por uns; odiado por outros. Dá vários sermões; recita poemas. Vive torrando o saco da gente para que escrevamos, não acho importante. O que isso vai acrescentar em minha vida? Como ele é chato! Ainda insiste que eu leia. Ah, tenho mais o que fazer! Queria mesmo que morresse logo; por outro lado, não. Às vezes até gosto do dito cujo, não vou negar; no mais, o detesto. Coitado, acha que é meu pai. Quem ele pensa que é? (...)
Bah! Fica quieto aí no fundo, pô! O professor quer falar!     
Gostamos de todos, ninguém nos escapa. Um dia vivemos, em outros nos matam. Ousamos discursos, melhor não ter dito. Quanto ao ler e escrever, sim é importante, mas não é exigência nossa, a vida é que exige. Quem não lê neste mundo (ouçam bem, meus amigos!), se perde dos outros, se aparta consigo. O mundo é que é duro. Não somos bandidos, pois o tempo que temos – mesmo sem estarmos juntos –, estamos sempre pensando contigo, elaborando aulas pra ti.
Não sei se é bem assim. Deve ter algo que não te agrade em mim. Porém, te aconselho: me deixa de lado, não me enche o saco, professorzinho querido. E para de olhar. O celular é meu. Se quer me xingar, invento que me bateu. Pensa que eu não sei? Tenho mais direitos que tu. Quem mandou ser professor, agora aguenta o tranco! Acha que eu tenho medo de ti? Putz! Melhor é se cuidar.  
Medo?! Entendeu errado, criança! Nós é que temos medo. Perder algum de vocês está fora de cogitação. Se se perdem um dos nossos, nós é que reprovamos, não passamos direito a lição. As coisas não estão fáceis, disso sabemos bem. Mesmo assim queremos que entenda: não encontrando brasa na lenha, nosso sopro é que se perde e nenhum fogo vira fogueira. A realidade está difícil pra ti? De nosso lado, pode apostar, o buraco é mais embaixo.
Entendo, já sou grandinho. No fundo sei que desejam o meu bem. Mas por que não me deixam quieto, na minha? Eu não quero ser como vocês.
Ninguém é igual a ninguém. Nenhuma repetição acontece. Tudo o que ocorre neste mundo, o tempo traga e a sociedade esquece. Daí a importância do que fazemos: dar condições de vozes ao que tanto insiste em pregar. Se conosco está difícil. Sem nossas aulas, saiba que a coisa ainda é pior.
Amigos?
Tá bom, amigos!

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CINCO VERDADES SOBRE A ESCRITA

1)      Escrever não é um dom divino, muito menos competência exclusiva para poucos iluminados. O texto é que vai se iluminando, tudo vai depender do tempo que passarmos com ele – indiferente de quem escreve. Saibam que todos podem fazer um. No entanto, não sendo a escrita uma capacidade inata, precisamos aprendê-la, treiná-la, já que assim como nós, nenhuma ideia nasce pronta. Elas precisam ser organizadas, revisitadas e, se necessário, refeitas;

2)      Falar é uma coisa, escrever é outra. Deve-se evitar o uso de recursos orais em uma construção textual. Reparem que quando conversamos com alguém repetimos muitas vezes as mesmas coisas, isso sem nos darmos conta. Só que no plano oral temos muito mais ‘ferramentas’ para explorar. Os gestos, as expressões faciais, a entonação da voz, enfim. E é exatamente por isso que devemos deixar enxutos os argumentos quando os reconstituímos no papel. Eles contam com muito menos elementos, se comparados à oralidade. Esperam completarem-se em outras vozes. Por isso é necessário traçar um perfil desses possíveis leitores;

3)      Aprendemos a ler, lendo; e escrever, escrevendo. A leitura é algo essencial, disso ninguém duvida. Contudo, não adianta lermos milhões de livros esperando que apenas com isso seja possível conceber um texto. A escrita é treino; e a leitura, se aliada a essa prática, enriquecimento. Mesmo assim é indispensável escrever. Ler também, ora! Mas não espere excelência se nunca pegou uma caneta na mão. Faz-se necessário utilizá-la mais. Claro, se quiser conhecer-se! Pois é. Pelo simples exercício, escrever nos reconstrói. Pensar a si mesmo é bem trabalhoso, escrever exige muito de nós. Apesar disso, sozinhas elas (a leitura para lá e a escrita para cá) enricam-se menos, porém é possível sim;

4)      Não há texto sem crítica. Eis uma capacidade que precisamos maturar. Quem gosta de ser criticado, afinal? Porém, se desejamos uma organização sólida das ideias (do tipo que saiba encontrar o mundo), é preciso começar a pensar em aceitar esse tipo de contribuição. Geralmente, depois de trabalharmos muito em determinado argumento, temos a impressão de que tudo nele está certinho. Mas não. Basta um olhar de fora para denunciar um ou outro fio solto. O que é natural. Há coisas que passam batidas por nós. Pontuação, erros de palavras, coerência. Essas coisas;

5)      O texto nunca está pronto. Há sempre o que melhorar nele. Duvidando disso, faça um exercício. Escreva um parágrafo, que seja. Deixe-o parado até o dia seguinte. Pegue-o novamente e leia. Sim, a vontade que temos é de mudar um montão de coisas, não é verdade? Pois então. Enquanto aquelas ideias vão descansando no papel, nós vamos mudando, arejando os pensamentos. O escrito não muda. Nós é que mudamos, viramos outros. E é assim que provocamos as mudanças – e sempre estamos em mutação, logo os textos também.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

AOS OLHOS DO “NÃO TE QUERO”

Queria que as palavras não doessem tanto. Saem como um parto. Ficam no mundo: Antígona.

Hoje o dia começou maluco. Incapaz de manter os detalhes para fora de mim, logo cedinho, fui mastigando os passos em direção aos lugares que as obrigações me mandavam ir. Primeiro uma consulta médica, Ok; já que estive ali perto, passei em determinada Escola para ver se havia vaga para professor de Língua Portuguesa ou Literatura, mas logo entendi que era pouco apresentável para o espaço (senti os dizeres nos olhos daquela recusa), agradeci e saí; pouco mais frustrado, passei no laboratório para marcar um exame necessário, ali as pessoas pareciam mais afinadas, gostei; enfim, dirigi-me ao posto de gasolina para trocar o óleo do carro, sabia que demoraria. Então, aguardando, li alguns ensaios do antropólogo Roberto DaMatta. E enquanto fazia isso, fora de meu controle, todas as verdades daquele caminho (entre a “casa” e a “rua”) se manifestaram nos textos, nas relações históricas que se confundiam com aqueles “agoras”.
Assim diziam: “Numa sociedade onde somente agora se admite não existir igualdade entre as pessoas, o preconceito velado é uma forma muito mais eficiente de discriminar, desde que essas pessoas ‘saibam’ e fiquem no seu lugar.” Parecia até um salmo. Será que eu não estou sabendo qual é o meu lugar? Pode ser. Devia ter ficado em casa.
Levantei, pensei em esticar as pernas. Nesse momento, deixando o DaMatta um pouco de lado (precisava compreender o que ele estava querendo me dizer), peguei um cafezinho, acendi um cigarro e fui até a margem da rua – senti que meus espíritos estavam inflamáveis, por isso fumei longe – quando, ao acaso, unidas pelas mãos, vi passar duas mulheres. No entanto, não foram elas que me engordaram a atenção. O que me encheu os olhos foi a atitude de uma senhora que vinha logo atrás delas. Persignou-se (fez o “sinal da cruz”) ao movimento de uma simples troca de beijo entre aquelas pessoas. Persignei-me para perseguidora ‘persignadora’, também. De imediato, baixei a cabeça e pensei: “Hoje não é mesmo o meu dia. Caramba!”.  
Então, sei que não devia, mas fiquei costurando as cores daquela pequena epopeia, minha aventura desde minha casa até ali. Voltei para dentro do posto. Peguei o jornal local, acordei o texto que dormia em minha coluna daquele dia, reli e algo me ‘reacordou’: “Vadiar também é preciso” – confesso que me impressionou aquela frase, frase que eu mesmo havia escrito. Que coisa, mesmo de folga, meus pensamentos ainda não sabiam fazer o que aquele outro exigia de mim. Não dava para vadiar, eles (os pensamentos) trabalhavam naquele mesmo espírito que carregava a acepção mais antiga do termo trabalho. Baú que o antropólogo me fez abrir hoje pela manhã: o de tripalhare, que significa castigar com o tripaliare, palavra que origina esta: ‘trabalhar’.  
Ah! Depois me perguntam por que levo a vida como ermitão. Espero que estas pequenas horas para fora de casa possam ter respondido por mim. O que, para encerrar, parodio com uma passagem escrita por Homero. Acho que é assim:
Meu nome é Ninguém, Polifemo. Se alguém perguntar, diga que Ninguém ficou chateado com sua maneira caolha de "pouco-ver" as pessoas. Afinal, Ninguém é pessoa, ora!
Vai um vinho, aí?

terça-feira, 29 de setembro de 2015

CARPE DIEM

Tuas lonjuras estão infestadas de logo alis.

Há dias em que o Sol parece não brilhar como deveria. O problema é a falta de luz, não a do astro. Refiro-me aquele escuro de dentro da gente, lugarzinho ruim de clarear. E quem nunca se pegou assim? Perdeu-se assim? Apagou-se assim? Frestas? Sim, às vezes é preciso redescobrir fissuras para que o mundo possa nos iluminar com algum fiapo. Mesmo não encontrando brechas, tente abrir outras frinchas, arejar-se, rasgar-se até os ossos, se for necessário. Fácil? Nada fácil! Justo por ser este um exercício repetitivo, diário e complicado, já que jamais voltaremos a ser os mesmo que fomos ontem. Não sendo iguais, fica difícil esperar que os demais, igualmente, sejam recebidos pelas novas versões do que foram no dia anterior, uma vez que até o Sol renasce como outro a cada amanhecer. Há muitos “Sóis”!
Contudo, sei bem, iluminar-se é uma missão quase cinematográfica. Talvez porque – sem nos darmos conta – abafemos os poros no final de cada um daqueles dias tenebrosos (e quem nunca teve um?). Entender? Não se trata de apenas entender. Acho que guardar os problemas em algum cantinho seja a melhor saída, uma boa medida para se livrar, por hora, de algo que nos aflige, mais tarde o pegamos – claro! Depois sim é que vem a compreensão (eu disse com-pre-en-são: ‘entender com’, ‘junto de’...), que é quase o equivalente a um ler-se, reler-se, tresler-se, livrar-se da escuridão que nos prende àqueles pensamentos que não pertence ao “ali”, mas ao “lá”. Autoajuda? Nada, é autoconstrução. Afinal, acabamos sendo um bocado de pessoas por debaixo de nossas peles – todos querendo respirar, sair da cegueira de ter visto demais o “de menos”.
Pois é, o mundo deve ser feito de sombras que se revezam na luz e, tal como o coração, o Sol, indiferente desse lado escuro, não sabe desligar, as coisas é que giram. O jeito é rogar para que os escuros possam ser bem mais do que um silêncio, que sejam silêncios a espera de vozes e ‘palpitações’ afinadas para o giro de outras canções.
Quanto aos momentos mais sombrios, costumo – confesso – pôr uma música (em geral uma sinfonia) e fechar os olhos enquanto ouço. Entendendo pouco do gênero, sinto jorrar as cores que se distribuem dentro de um lago bem iluminado. Igualzinho a um tambor que pulula ao ser arremetido por uma baqueta qualquer. Relaxo.  Ah! A saída tem sido essas imagens que se embebedam de algumas notas. Das feridas, fazem-se aberturas. Das aberturas, entradas francas que não sangram mais, que se regozijam com um suspiro leve ao recordar da existência de meu próprio instante de carpe diem