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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

CITAÇÕES, POEMAS E 'FACEIRAÇÕES' COLETADAS DE MINHAS LEITURAS (Momento 4)

(ESCRE)VER-ME

nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar

(COUTO, Mia. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 111).

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MULHER

Solteira, chorei.

Casada, já nem lágrimas tive.

Viúva, perdi olhos
para tristezas.

O destino da mulher
é esquecer-se de ser.

(COUTO, Mia. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 66).

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AVESSO BÍBLICO

No início,
já havia tudo.

Mas Deus era cego
e, perante tanto tudo,
o que ele viu foi o Nada.

Deus tocou a água
e acreditou ter criado o oceano.

Tocou o chão
e pensou que a terra nascia sob seus pés.

E quando a si mesmo se tocou
ele se achou o centro do Universo.
E se julgou divino.

Estava criado o Homem.

(COUTO, Mia. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 72).

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"Cego é quem só abre os olhos
quando a si mesmo se contempla."

(COUTO, Mia. Cego. In:___. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 73 (fragmento)).
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"Preciso ser um outro
para ser eu mesmo"
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(COUTO, Mia. Identidade. In:___. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 86 (fragmento)).

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"Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia"
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(COUTO, Mia.Fui sabendo de mim. In:___. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 118 (fragmento)).

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"Aquele que acredita ter visto o mundo,
não aprendeu a escutar-se no vento."
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(COUTO, Mia. Danos e enganos. In:___. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 158 (fragmento)).

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"– Viver, para muitos, às vezes parece até uma espécie de cacoete."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 250).

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– Ontem de noite uns meninos me agarraram à força e me levaram para um terreno baldio. Uns cinco ou seis... Primeiro me tiraram toda a roupa, até me rasgaram um vestido quase novo. Me derrubaram, se puseram em mim, não houve porcaria que não fizessem comigo. Depois foram embora dando risadas e não me deram um mísero vintém.
– Conhecidos?
– Alguns acho que conheço de vista. Meninos de boas famílias.

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 294).

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"Às vezes neste mundo é preciso mais coragem para continuar vivendo do que para morrer."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 307).

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"Meu pai me ensinou que a pergunta 'Quem me fez?' não pode ser respondida, já que imediatamente sugere a pergunta seguinte 'Quem fez Deus?'"

(MILL, John Stuart. In: RUSSELL, Bertrand. Por que não sou cristão: e outros ensaios a respeito de religião e assuntos afins. Trad. Ana Ban. Porto Alegre: L&PM, 2016, p. 30).

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"[...] parece surpreendente que as pessoas possam acreditar que este mundo, com todas as coisas que ele contém, com todos os seus defeitos, deve ser o melhor que a onipotência e a onisciência conseguiram produzir em milhões de anos. Eu realmente não consigo acreditar nisso. Os senhores acham que, se tivessem a onipotência e a onisciência e milhões de anos para aperfeiçoar seu mundo, não seriam capazes de produzir nada melhor do que a Ku-Klux-Klan ou os fascistas?"

(RUSSELL, Bertrand. Por que não sou cristão: e outros ensaios a respeito de religião e assuntos afins. Trad. Ana Ban. Porto Alegre: L&PM, 2016, p. 33).

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"Minha visão pessoal a respeito da religião é a mesma de Lucrécio. Vejo-a como uma doença derivada do medo e como fonte de tristeza incalculável para a raça humana."

(RUSSELL, Bertrand. Será que a religião fez contribuições úteis para a civilização? In:___. Por que não sou cristão: e outros ensaios a respeito de religião e assuntos afins. Trad. Ana Ban. Porto Alegre: L&PM, 2016, p. 46).

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"– Prenda Jesus, delegado, prenda-o o quanto antes! Interrogue-o. Faça-o confessar tudo, dizer o nome de todos os seus discípulos e cúmplices... Se ele não falar, torture-o em nome da Civilização Cristã Ocidental!"

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 328).

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"Para vós o importante é que a festa continue, que não se toque na estrutura, não se altere os estatutos do clube onde os privilegiados se divertem. A canalha que não pode tomar parte na festa e se amontoa lá fora no sereno, envergando a triste fantasia e a trágica máscara de miséria, essa deve permanecer onde está, porque vós os convivas felizes achais que pobres sempre os haverá, como disse Jesus. E por isso pagais a vossa polícia para que ela vos defenda no dia em que a plebe decidir invadir o salão onde vos entregais às vossas danças, libações, amores e outros divertimentos."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 351-352).

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"– Quando foi da última concorrência havida no município para o fortalecimento de automóveis, caminhões e máquinas agrárias à nossa prefeitura, murmuraram por aí os oposicionistas que houve fraude... Pois houve mesmo. E da grossa! Sei disso porque fui eu quem engendrou a negociata. Três firmas entraram na concorrência. A que ofereceu a melhor proposta foi logo alijada porque era uma empresa idônea e recusou entrar no cambalacho que propus. De combinação com os meus sócios, o honrado prefeito major Brazão e o nosso impoluto coronel Vacariano, inventei uma tecnicalidade que pôs logo essa companhia fora de combate... Ficaram apenas duas e foi aceita a que nos fazia a proposta mais conveniente: a que concordou em dar-nos por baixo do poncho uma "bonificação" de trinta por cento sobre o total do superfaturamento dessas viaturas e máquinas...".  

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 356-357).

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"Pátria? A flor dos Vacarianos ama tanto a sua, que tem passado a vida a lesar os cofres públicos e a mamar nas tetas desta pobre república."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 362).

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"– Não sou nenhum moralista. Não penso como os "pilares" da sociedade burguesa que localizam a moral entre as pernas das pessoas. Para mim existe outra moral mais alta, que é a social, a responsabilidade do homem para com o homem. [...] Acho que cada criatura humana pode fazer o que entender com o seu corpo e o seu sexo. Não é da conta de ninguém."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 364-365).

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“Ninguém conhece o outro, e ainda bem que o não conhece, e, se o conhecesse, conheceria nele, ainda que mãe, mulher ou filho, o íntimo, metafísico inimigo.”

(PESSOA, Fernando. A quintessência do desassossego: seleção de pensamentos do Livro do Desassossego. FRANCHINI. A.S; SEGANFREDO, Carmen. (Org.). 2. ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2009, p. 111).

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"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda gente."

(PESSOA, Fernando. A quintessência do desassossego: seleção de pensamentos do Livro do Desassossego. FRANCHINI. A.S; SEGANFREDO, Carmen. (Org.). 2. ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2009, p. 136).

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"Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo."

(PESSOA, Fernando. A quintessência do desassossego: seleção de pensamentos do Livro do Desassossego. FRANCHINI. A.S; SEGANFREDO, Carmen. (Org.). 2. ed. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2009, p. 138).

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“Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi.”

(ANDRADE, Oswald de. In: BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 457).

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"Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 390).

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"Gosto da vida. É um desafio permanente. Se ela é absurda, sem sentido, então procuremos dar-lhe um sentido. Eu acho que a senha é Amor."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 394).

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"O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. (...) A Biblioteca existe ab aeterno. Dessa verdade, cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. (...) Em alguma estante de algum hexágono (raciocinaram os homens) deve existir um livro que seja a cifra e o compêndio perfeito de todos os demais: algum bibliotecário o consultou e é análogo a um deus."

(BORGES, Jorge Luís. A biblioteca de Babel. In:___. Ficções (1944). Trad. Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 69-71).

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"Que é o povo? Um monstro com muitas cabeças, mas sem miolo. E esse 'bicho' tem memória curta."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 396).

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"Tenho o direito de ter raiva, de manifestá-la, de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga porque, histórico, vivo a história como tempo de possibilidade e não de determinação."

(FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 52. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015, p. 73).

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"Na calçada, no lugar em que o rapaz caiu, ficou uma larga mancha de sangue enegrecido, na qual a imaginação popular – talvez sugestionada por elementos de esquerda – julgou ser a configuração do Brasil."

(VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 489).

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